O que aprendi com os bantu-kongo e a importância de escrever história preta  #SouPretoFW

Minha história contada por meus pais, começa em 14.08.1986 33 e 3 meses, o número dos meus ciclos na terra, no tempo linear que os brancos criaram. Mas nem sempre o tempo foi linear, dividido entre passado, presente e futuro. Quando descobri a cosmologia africana dos bantu-kongo e o cosmograma bakongo, comecei a reescrever minha história afrodiaspórica baseada na cosmovisão de África, o mundo regido pelos ciclos do tempo. Há fontes etno-históricas que demonstram que o cosmograma bakongo existia como um tradição simbólica de longa data na cultura dos bantu-kongo antes do contato europeu em 1482 e permaneceu em uso na África Central Ocidental no início do século XX.

O cosmograma é um símbolo emblemático do povo kongo e sintetiza uma gama de idéias e mensagens metafóricas que compõem e constroem seu senso de identidade dentro do universo. Representado por uma espécie de mandala conhecida como “Diekenga”, designa os ciclos do sol, da vida, do cosmo e do tempo. A criação do mundo, a vida humana e os grandes processos sociais são explicados através desse cosmograma. Ao centro do círculo, uma cruz o divide em quatro etapas. A linha horizontal separa o mundo dos vivos, do mundo dos mortos. Essa linha horizontal é Kalunga. Para melhor imersão e entendimento da cosmologia africana bantu-kongo, é preciso mergulhar nos ensinamentos do pensador congolês Fu Ki Au. Para Fu Ki Au, Kalunga é uma força de fogo completa em si mesma, emergiu dentro do mbungi (o vazio) e tornou-se fonte da vida. Acendeu o vazio e o transformou.

Dessa forma o mundo é "a totalidade das totalidades, unidas por Kalunga, a energia superior mais completa que existe, dentro e fora de cada coisa no interior do universo. É uma realidade física pairando em Kalunga, metade emergindo para vida terrestre e metade submergindo à vida submarina e o mundo espiritual. Kalunga, é o portal entre esses dois mundos, é a vida em completude. Como o tempo para os bantu-kongo é cíclico, cada corpo no universo possui seu próprio tempo cósmico, seu próprio processo de formação. Voltando a minha história, quando eu tinha 5 anos, no tempo dos brancos, meu pai morreu.

Para os brancos, a morte é o fim de tudo. Para os kongo, a morte faz parte do movimento cíclico, em que constantemente estamos nascendo e morrendo.

Para um muntu africano, os mortos não estão mortos: eles são apenas seres vivendo além da muralha esperando pelo seu possível retorno a comunidade, ao mundo físico. Os bakongos acreditam que na morte nos conectamos com nossos ancestrais, para depois nascer novamente. Ciclo após ciclo.

A vida de um ser humano é um contínuo processo de transformação, um ir ao redor e ao redor.

Somos o movimento ininterrupto, através de quatro etapas de equilíbrio entre uma força vertical e uma força horizontal. A força horizontal é a chave para abrir e fechar, para entrar e sair do mundo diurno.A força vertical é dominante, secundária ao equilíbrio exigido para a vida da comunidade. Quando meu pai atravessou a linha da Kalunga, fui para a escola pela primeira vez. Foi na escola que sofri as primeiras violências sistêmicas do racismo e senti a responsabilidade de ser um corpo preto, no mundo dos brancos. Aos 7 anos, um tio meu, preto retinto alisou meu cabelo e minha identidade foi apagada pela primeira vez. O tempo linear demorou pra passar e eu nem sabia que, assim como meus irmãos bakongo eu estava renascendo e aprendendo ciclicamente. Pensava as vezes que se meu pai estive no mundo físico, eu sua imagem e semelhança, sofreria menos. Aos 13 anos, minha mãe, eu e meu irmão nos mudamos para Paraisópolis. Foi nessa comunidade da zona sul que passei por importantes revoluções internas e externas. Orfã de pai, cria da favela. Foi em Paraisópolis que percebi a quantidade de irmãos pretos em vulnerabilidade social. Foi em Paraisópolis que vi irmãos tendo suas vidas interrompidas. A história da comunidade e a minha vivência na quebrada me transformaram de diversas formas.

Quando você é criada na favela perpassa por vários universos, nós somos culturalmente riquíssimos, nós somos transformadores.

Foi na favela que entendi a importância de ser unidade, ser povo e ser sobretudo coletivo e comunidade, dessa forma, há dois anos atrás, junto a minhas irmãs e irmãos pretos idealizamos o coletivo I N Á, essa ação partiu muito das nossas esperanças de construir caminhos narrativos e contar histórias de afeto e felicidade das periferias de SP. Um tempo depois nós conhecemos a CEMFREIO e como uma unidade, criamos a SOUPRETOFW. A primeira semana de moda afrodiaspórica do Brasil existe em um momento político em que o desmonte cultural é certo, em que pretos seguem sendo assassinados pelo estado e os nossos seguem sangrando.

Nós seguimos contando corpos. Paraisópolis foi um dos lugares que escolhemos para nossas oficinas e desfiles, antes mesmo do massacre de jovens acontecer no baile da DZ7.

Essa chacina partiu demais nossos corações e entendemos que mais do que nunca é preciso celebrar a cultura periférica, celebrar os agentes criativos que movimentam a economia na quebrada, celebrar a vida de todos nós, pretos pobres favelados. Vai ser incrível escrever essa história com tantos pretas e pretos criadores, que também estão no corre acreditando mesmo quando o sistema diz que preto bom é preto morto.

A SOUPRETOFW é pelos 60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais que já sofreram violência policial, e pelos tantos outros forjados pelo sistema, é pelos 100% preto, é por cada jovem negro que morre violentamente a cada 4 horas em São Paulo, é pelos 9 de Paraisópolis, é por todos nós. Esse projeto é um manifesto da genialidade preta, da união preta, do amor preto, é abraço de corações e mentes pretas. Como sobreviventes pretos nós devemos mergulhar na cosmovisão africana para reescrever nossas histórias, num tempo que seja cíclico, de plantio e colheita, sabendo que os nossos pretos, nunca morrem, nossos pretos estão juntos aos nossos ancestrais e eles vivem em nós.

Dia 23.11.2019 começamos uma história que escreveremos juntos, nós nascemos para isso, estamos prontos. Meu nome é Zeni Frasão Azevedo, filha de Aparecido dos Santos Azevedo, renascendo a 33 anos e 3 meses, ciclicamente, como os bantu-kongo.

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